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#01 - Notas sobre o que fazemos

Eu quero falar das coisas que fazemos por meio de nossas mãos ou que fazemos com o corpo. Desejo argumentar que essas coisas constituem a nossa humanidade, de modo que as não fazer é adoecer de alguma maneira. Nós as fazemos e sentimos uma satisfação na medida em que nos imprimimos nelas e tal como elas se imprimem em nós; nós as temos, assim como elas nos tem. Há quem as chame de arte, artesanato, música, esporte, etc, mas argumentarei que elas são múltiplas e mais diversas do que essas classificações citadas. As coisas que me refiro não são apenas o produto de uma atividade em si, mas a realização de um esforço acumulativo no espaço e no tempo que perpassa do indivíduo ao social, pelo constante aprendizado, pela dominação da técnica. Nós nos transformamos no fazer, assim como modificamos aquilo que fazemos, além de modificar o nosso ambiente ao redor. Realizar uma atividade de forma regular e com uma propósito (mesmo que difuso) é um processo que não consta um fim, as nossas capacidades e o que fazemos por meio delas é algo que sempre está aberto a um horizonte novo de possibilidades. Fazer, assim, é seguir com a manutenção de nossa identidade, de nossa auto-organização. Fazemos porque precisamos para sobreviver, mas porque também gostamos de fazer. Aproveitando um pouco o espírito wittgensteiniano, aquilo que fazemos pode ser tal como cozinhar, pintar um quadro, escrever linhas de código, malhar, etc. Desejo construir uma imagem filosófica da atividade de fazer algo com um propósito.

Considerações anteriores

Há tempo que desejo escrever mais sobre temas que estão para além da minha pesquisa (apesar de não ser exatamente algo fora de pesquisa o que pretendo escrever), sinto-me restringido a sempre dedicar o meu tempo de escrita e leitura para aquilo que concerne o desenvolvimento da minha tese (ou dissertação há pouco tempo). Desse modo, as minhas engrenagens filosóficas estão enferrujando e se movendo cada vez menos. Os caminhos da pós-graduação muitas vezes levam à hiperespecialização, dominar uma abordagem, autor ou doutrina pode ter a infeliz consequência de te fechar para tudo que está além do seu pequeno feudo. E aí vem um dos meus receios, em adotar uma espécie de comportamento que eu via acontecer nos meus professor. Há de se diferenciar a humildade do não saber, admitindo a própria incapacidade ou limitação, do exagerado medo de incorrer em erro. Nesse sentido, sigo firme com o pragmatismo de Peirce e James: o medo do erro nos afasta da verdade. Acho triste os filósofos que esquecem que eles são antes de tudo um filósofo, e não filósofo de X, ou especialista de Y. Acho que esse comportamento que descrevi acima tem como origem o fato de que o processo de especialização nos leva a ser cães de guarda de nossos feudos. Nesse processo de formação e amadurecimento filosófico, antes de tudo nós estamos querendo saber onde estamos, e agimos tal qual um cartógrafo que desenha um mapa. Talvez o cartógrafo não seja a comparação mais adequada, pois ele está buscando representar como as coisas estão em última análise, é aí pode se representar mais ou menos acurado. Acho que o filósofo está mais posicionando as mobílias e assim fazendo sentido de um espaço (não necessariamente representando algo). Porém, não se segue que não haja uma normatividade que subjaz como dispor as mobílias nesse espaço filosófico, mas essa normatividade não é determinada por como as coisas estariam dispostas invariavelmente e nós precisamos apenas achar a forma correta, mas sim a partir de vários critérios que nos utilizamos para dispor as mobílias de maneiras mais ou menos apropriada aos nossos interesses ou necessidades. A discussão sobre alguns pressupostos metafilosóficos, que guiarão a normatividade que mencionei, também sempre estará em disputa, e essa disputa sempre é válida.

Seja qual for a metáfora mais adequada, fato é que levamos muitas mordidas em nossas bundas nesse processo de fazer sentido do espaço filosófico enquanto ainda estamos formando o nosso conhecimento. Esbarramos nos ditos feudos que nem sabíamos que eram de alguns senhorEs. De tantas e tantas mordidas, começamos a acreditar que fazer filosofia é ter um feudo para si e estar seguro nele. Assim, a boa relação filosófica com os pares é respeitar rigidamente as bordas e fronteiras de cada um. "Esse questionamento você deveria perguntar para fulano que estuda Z". O resultado é que apenas lemos e escrevemos mais do mesmo daquilo que lemos e escrevemos. Talvez a gente não erre, mas tão pouco dissemos algo com valor ou relevância. Minha questão não é com a especialização, ela está inscrita em algo que descreverei e elogiarei ainda nesse escrito ou nessa série escritos, mas em sim como podemos lidar com ela. Dominar uma habilidade (e eventualmente se especializar) é algo paradoxal, você ao mesmo tempo se restringe para estar apto a interagir com o mundo de formas muito específicas, como também se abre ao mundo para interagir com ele dessas formas muito específicas. Enfim, com sorte, desenvolverei esse ponto com mais cuidado em outro momento, por ora fique apenas com a força retórica cafona. Tendo dito tudo isso, acho que agora estou mais seguro em escrever sem medo de errar. Mesmo não errando, possivelmente escreverei trivialidades, mas espero que eu não fique somente nelas. Sou adepto que dá ideia que pensamos na medida em que escrevemos, falamos ou sinalizamos (ou que pelo menos estamos imersos profundamente em um ambiente em que se escreve, fale e sinalize), e não que primeiro vem uma ideia em nossas cabeças e apenas as realizamos em um veículo material do pensamento. Dito isso, é necessário escrever para eu pensar melhor. Vejamos por onde o fazer nos leva.