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Compulsão e disfunção entre a vontade e o intelecto

Algo que sempre odiei que parte da filosofia escolástica, mas também da filosofia moderna, é o intelectualismo na relação entre vontade e intelecto. São várias as teorias que desenham, por caminhos diferentes, a subordinação da vontade ao intelecto. Não consigo concordar em como o meu déficit da vontade poderia sempre ser, em última instância, um erro ou insuficiência do entendimento. Há aqueles casos em que eu poderia racionalmente mostrar e defender todas as razões para escolher “A” em detrimento de “B”, e isso pode ser conhecimento, pode ser verdadeiro, mas ainda assim escolho B. O que está me escapando, então? Em tais situações, acho muito mais interessante vislumbrarmos a nossa “irracionalidade” do que nos culpar por algo que nunca fomos ou seremos.

(Talvez aí esteja um problema, ou seja, de não conseguir me enxergar errando, de superestimar as minhas capacidades. De qualquer forma, estou em melhor posição para avaliar se erro ou não, se me falta conhecimento ou não, do que qualquer outro que possa afirmar isso simplesmente com o intuito de salvar sua teoria)

Afirmo que a vontade existe, tanto de primeira ordem quanto de segunda ordem, isto é, a vontade da vontade. Essa é a distinção que me atormenta e que nos falta em várias discussões. Para haver a fixação da vontade de primeira ordem, não basta sabermos todos os fatos que poderia a motivar, mas sim a incorporar pelo hábito e pela prática. Só dessa forma podemos ser realmente convencidos. Porém, ainda há uma incomensurabilidade entre a vontade de primeira e a de segunda ordem. Afinal de contas, como criar o hábito e a prática? Ou seja, como nossa carne pode se mover e agir? Muitas das vezes, ter a vontade de segunda ordem é uma questão necessária para se criar a vontade de primeira. Porém, podemos pensar sem tanto esforço em casos em que a vontade primeira se crie a partir da pura prática, sem nunca termos refletido sobre isso. Como se estivéssemos a andar e, por fim, descobrir que gostamos e queremos caminhar. Os fatos, normalmente, podem nos motivar e impulsionar, todavia o que falta quando nenhum fato tem o poder de construir a ponte para essa outra vontade da prática? Nesses casos, será que ainda nos falta a ciência de algo? Se isso for o caso, então tudo que eu disse até então está errado. Prefiro permanecer com o que refleti até aqui.

Saber que o mundo é de tal e tal forma nunca é suficiente para mover nossa carne. Às vezes, mais coisas partem das nossas funções básicas e primárias, como as funções de automanutenção, do que imaginamos ou supomos. Como diante de certa altura, nada mais nos segura senão os fios internos de nossa pura fisiologia, de nossa natureza. Quando vislumbramos essa total separação entre os fatos e nossa ação, exigimos algo de outra ordem que tão pouco existe. Por mais arbitrária que seja a relação da causa com seu efeito, a da disposição com seu evento, ainda assim só temos isso a nos pegar. Qualquer exigência para além da arbitrariedade e contingência do mundo só nos fará perder o sentido de viver, até que os nossos fios internos se rompam.

#filosofia #pensamentos